“Presta Assunto” – na Fome

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Um espaço para semear inquietudes e cultivar reflexões sobre as mazelas e belezas do cotidiano

 

 

 

Colunista: Herena Barcelos
Nutricionista, Escritora, Agente Cultural,
 Mestranda em  Estudos Rurais
herena.barcelos@ufvjm.edu.br

Em 2014, o Brasil se viu depois de muito tempo fora do mapa da fome da Organização das Nações Unidas (ONU, 2014). No entanto, a última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), aponta um país com 10,3 milhões de pessoas que passaram por restrição de alimentos em 2017 e 2018 (IBGE, 2019). Em pesquisa mais recente, realizada pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar – Rede PENSSAN e publicada em 2021, mais da metade dos brasileiros se encontrava em algum nível de insegurança alimentar (PENSAAN, 2021).

A semente plantada hoje é a da reflexão acerca de um sistema de produção e distribuição desigual, que acentua ainda mais as desigualdades sociais. Conforme afirma Ester Vivas (2017), a fome não é uma catástrofe natural. A dureza do dia a dia de quem tem fome é um dado inquestionável. Abaixo, um texto baseado em fatos reais.

Foto: Herena Barcelos

FRONTEIRAS

Eu não queria ter ouvido aquela frase.

No meu tempo de menina, Vovó contava umas histórias que mexiam com a cabeça da gente. A que eu mais tinha medo era a do Velho do Saco. Mas ontem me lembrei da Pisadeira. Eu até vi ela pisando na minha prima uma vez. A Pisadeira de Vovó é só uma mulher grande, com uma trouxa também grande, que não faz nada de mais, apenas pisa em quem se deita com a barriga muito cheia e não deixa mexer. Eu sempre fui medrosa, mas a Pisadeira não era assim de causar medo.

Sonhei com ela.

Levantei com o pé direito, querendo não dar motivo para o recente cotidiano, já bastante difícil, desandar de vez. Era para ser apenas mais um dia de corriqueira angústia covídica, tentando ser útil, tentando minimizar os horrores da pandemia.

Eu não queria ter ouvido aquela frase.

Depois que ouvi, atinei para uma dúvida que a partir de então sempre tive: o que faz determinados momentos se tornarem divisas? É. Porque a vida está ali, imparável, acontecendo, e de repente aquela alguma coisa vem e muda para sempre o dali em diante.

Dessa vez foi uma pergunta.

Desci para o comodozinho onde Mainha ajuntava as poucas doações e magicamente transformava em cestas. Meu mundo sentia fome. E eu tentava ser útil, buscando minimizar os meus horrores da pandemia.

Tentando.

Como boa nativa do Jequitinhonha, a fome me é um eterno assombramento. Eu admiro os adultos que sobrepujam seus monstros. Porque eu, mesmo despistando, mesmo sorrindo como se a felicidade fosse de fato, mesmo depois de graúda, nunca acreditei totalmente que ela havia ido embora. Sempre desconfiei que Dona Miséria ia voltar.

Voltou.

Ela pensava que eu não estava vendo. Até tinha minhas dúvidas, mas ontem desvelou de vez. Não que ela não existisse antes de ontem, mas sorrateira que é, tem ludibriado muita gente. E até quem dorme de soslaio, sabendo que um dia ela vai aparecer, acaba que fica confuso.

Eu estava no comodozinho medindo os pratos do feijão que ganhamos, quando Mainha abriu o portão e anunciou os visitantes.

O primeiro a chegar foi o Velho do Saco. Seu Otávio. Desde que me entendo por gente, anda pela cidade com um embornal, grande demais para ele. O que me fez decidi-lo como o Velho do Saco da história de Vovó. Seu Otávio disse à Mainha que não precisava da cesta completa, porque havia ganhado arroz, óleo e farinha de um grupo de visitantes que veio da capital trazer doações. Pudesse, assim, deixar para outra pessoa que precisasse.

Pasmei.

Depois, chegou Rosa, com passo silencioso e cabeça baixa. Eu não precisava olhar para saber o que trazia nos olhos. Era a primeira vez que Rosa vinha. Mas eu já sabia seus olhos, por outros olhos que vi. Já tinha visto ontem, e anteontem, e antes de anteontem. Eram olhos de vergonha. Mainha sabidamente alertou: “não faça comentários”. Porque, de fato, ficava o estranhamento: até o último ano, tenho lembrança de Rosa doando pães para nosso natal solidário. A maneira como mantinha a filha para trás me fez pensar que ela não tinha mesmo com quem deixá-la em casa. Ou a pequena não estaria mesmo ali.

Enquanto Mainha arrumava os alimentos no saco, outra Rosa chegou. Mais despachada. Conhecida de tempos. Visita mensal. Sorria como se o acanho pudesse sumir.

Não sumia.

Seu neto, mais genuinamente confortável no espaço costumeiro, rompeu a fronteira e se aproximou da rapidamente nova amiguinha, que o recebeu com uma também rapidamente pronta reverberação de afeto. Rosa tentou impedir, mas num piscar de nossos olhos as crianças já estavam brincando.

Intrusa, e inconsequentemente, adentrei naquele convidativo universo infantil. Sorri para a facilidade de entrega que eu não tinha mais, dei uma banana para cada um e voltei à minha empreitada. E o diálogo se estabeleceu.

— Essa tia é boa, porque na cesta dela ela coloca banana.

— E as outras cestas não têm?

— Não. Ela coloca mandioca também, porque ela ganha da roça, mas Mainha diz que não vale a pena. Podia por mais fubá, que fubá é barato e rende e mata mais a fome.

— Mandioca também mata a fome. E tem que comer verduras, porque são saudáveis.

— A gente tem que comer o que tem.

— Eu só como o que tem agora, e só quando tô com muita fome. Tô doida pra essa pandemia acabar.

— Que que tem a pandemia?

— Quando a pandemia acabar, Painho vai voltar a trabalhar e eu não vou sentir fome nunca mais.

O menino riu com um leve debocha e eu amarguei a impensável sensação de ver inocência e crueldade coexistindo num momento só.

— Não tem como não sentir fome.

— Tem sim. Quando meu pai trabalhava eu não sentia fome hora nenhuma.

Pelos olhos que eu nunca tinha visto, nem no rostinho dele, nem no de ninguém, arrisco que essa frase mudou aquele menino. E depois do silêncio que me agonizou, ele pôs a mão na barriguinha efemeramente ocupada de banana, e fez a pergunta que consumiu todo ar daquele cômodo.

— A fome não é o normal?

Depois dali, ela deu as caras e não saiu nunca mais. Fica o tempo todo em todo canto olhando para mim.

A miséria voltou.

Por não saber mais quem sou, é que me dói não saber mais quem o menino será. Não que eu soubesse, mas agora tomei ciência de não saber. Se ele descobrisse com calma? E tem calma certa para descobrir que a fome não é sua culpa? E tem calma certa para explicar que mesmo se indo a culpa a fome não muda?

Quando me deito, com a barriga cheia de certeza de comer amanhã, a Miséria me pisa. Ela tem uma grande trouxa cada vez mais vazia. E ela cresce a cada minuto. Eu não vejo seus olhos, mas sei como eles são. E sei por outros olhos que vi. Vi ontem. Mas ainda não sei o nome.

A banana acabou ontem. Hoje ainda tem fubá. Mas certeza mesmo é que no amanhã a fome volta. E como o menino sentirá sua próxima fome?

A inanição dura e crua do cotidiano envergonhou minhas metáforas de fome interior. A vergonha de Rosa, a primeira, conta uma fome que se move. A vergonha da Rosa outra, de uma fome que se sustenta. A fome da pequenina, espera por um emprego que o futuro não promete. A não culpa fala de uma fome que castiga.

O velho do saco, de quem o povo teve tanto medo, não tem mais medo da fome. Não quero encontrar o menino. Tem coisas que ditas se tornam mais cruelmente verdades do que já são. Minha impotência alimenta a Miséria, mas esvazia sua trouxa.

Eles deviam ter medo do povo. Parece que a fome é mesmo o normal. 

Referências

ESTEVE, E. V. O negócio da comida: quem controla nossa alimentação? 1 ed. São Paulo: Expressão Popular, 2017. 269p.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Pesquisa de orçamentos familiares 2017-2018: primeiros resultados / IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento. Rio de Janeiro: IBGE, 2019. 

PENSSAN – Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil. 2021. 65 p.

Dicionário de Jequitinhonhês

Desandar – dar errado

Atinar – perceber

Ajuntar – reunir

Despistar – disfarçar

Graúda – grande

Desvelar – revelar

Sorrateira – dissimulada

Ludibriar – enganar

Soslaio – viés, esguelha

“acaba que fica” – por fim se torna

Prato – medida de volume

Embornal – sacola de pano

Despachada – desembaraçada

Acanho – vergonha

Empreitada – trabalho, missão

Tomar ciência – compreender

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Um comentário

  1. Que bonito texto!
    Parabéns e Abraço, Poeta querida!
    👏👏👏👏❤️😍🙏

    São tristezas da desigualdade econômica e social, de um desgoverno atual, de uma Pandemia…
    Vamos ter esperanças de que Melhores dias virão…❤️🙏

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