Como a era digital está mudando a agricultura familiar brasileira
Entenda como a Agricultura 4.0 e 5.0 estão mudando o campo brasileiro e por que a agricultura familiar enfrenta barreiras para aderir às novas tecnologias
A agricultura familiar no Brasil está passando por profundas transformações. Essas mudanças atingem a atividade agropecuária como um todo, pois “a transformação digital da agricultura […] é […] parte de uma transformação geral que está ocorrendo em toda a economia e na sociedade” (BUAINAIN, 2021, p. 20). Assim como já falamos da gig economy sobre os trabalhadores em serviços de entrega de mercadorias e transporte de pessoas (NUNES, 2025), agora faremos uma breve análise sobre os efeitos da era digital na agricultura familiar. Para isso, é necessária uma breve digressão.
Histórico e evolução da agricultura no Brasil
Antes do povoamento europeu nesse continente há 525 anos, praticava-se aqui a atividade de coletores e caçadores para a sobrevivência humana. Os primeiros habitantes viviam como nômades. A produção de alimentos sempre foi de sobrevivência para os membros da comunidade. Porém a colonização mudou toda essa realidade. Com a introdução da cultura do pau-brasil, da cana-de-açúcar, do extrativismo mineral, do café, dentre os principais, supria-se a metrópole colonizadora de produtos agrários e extrativistas essenciais para os países europeus ocidentais (PRADO JR., 2011).
Com o advento do capitalismo industrial nas terras europeias, em finais do século XVIII, assim como a mudança de atividades da monocultura do século XIX, o Brasil inicia o processo de crescimento territorial de suas terras agricultáveis e mantém a atividade primária voltada para países que já iniciavam suas revoluções industriais. Até o início do século XX, não tivemos avanços significativos para o aumento da produtividade no campo. Este só se transforma em cenário de crescimento de produtividade com o advento de novas tecnologias e das pesquisas em ciências naturais a partir de meados do século XX (DIAS, 2023).

Em levantamento recente de dados relativos à produção agrária brasileira, segundo fontes patronais, revela que entre 90% e 95% dos produtores rurais usam algum tipo de tecnologia digital (TOMAZELA, 2024). O uso é desde a utilização de software para operações bancárias até manejo agrícola. Esse fato indica que o setor produtivo do agronegócio brasileiro está acompanhando firmemente a tendência de inclusão digital em máquinas e equipamentos na produção agrária, movimento que já ocorre nos setores da indústria e comércio e serviços.
“A evolução da agricultura está diretamente ligada com a transferência de tecnologia” (DIAS, 2023, p. 5).
Agricultura 4.0 e 5.0: inovação tecnológica no campo
A era digital, oriunda do desenvolvimento da Indústria 4.0, alcançou o mundo rural. Esse fato fez com que todos os sistemas produtivos utilizassem esse avanço tecnológico. E assim como existe a Indústria 4.0, temos também a Agricultura 4.0, em que os conhecimentos desenvolvidos para a produção industrial foram direcionados também à produção agrícola.
Apesar da dificuldade de instalar internet na vastidão do território brasileiro, é notória a iniciativa do setor produtivo em parceria com órgãos governamentais no sentido de facilitar o acesso à internet e, assim, melhorar a gestão do setor rural. Essa parceria fez com que o produto do campo chegasse o mais rápido e eficientemente possível ao consumidor, acelerando o ciclo de produção e comercialização e contribuindo para que o produto primário agregue valor constantemente.
A era digital na agricultura, porém, não atende ao conjunto dos que vivem do campo brasileiro. A incidência de uso de tecnologias avançadas na produção rural é mais intensa entre os grandes proprietários do que entre os médios e pequenos produtores rurais. Na agricultura familiar, essa realidade é inversa à do agronegócio. A realidade do setor rural brasileiro é heterogênea, pois, além desses dois setores, temos também uma quantidade considerável de assalariados rurais — aqueles que dedicam uma jornada de trabalho e recebem um salário por essa jornada. Esse contingente soma cerca de 2,5 milhões de trabalhadores.
É, no entanto, o contingente de agricultores familiares o mais significativo. Segundo dados do IBGE, de 2017, foram catalogados 3,9 milhões de propriedades reconhecidas como de agricultura familiar (BRASIL, 2021), o que representa 77% dos estabelecimentos agrícolas brasileiros (SANTOS, 2024).
A agricultura familiar é herdeira de conhecimentos tradicionais, fator importante para a preservação ambiental e a biodiversidade. Observando a história, percebemos uma virada na produção agrícola: a Revolução Verde. Segundo Matos (2011), essa revolução “foi a introdução de estudos sistemáticos e aplicação de tecnologia na produção agrícola” (SANTOS, 2024, p. 2) e teve como período de referência no Brasil os anos de 1950 e 1960. Isso nos leva a afirmar que o uso da tecnologia na agricultura familiar brasileira ainda é incipiente.
A agricultura familiar tem um papel importante para o desenvolvimento rural no Brasil. Essa importância teve como marco a implantação do Caderno Especial do Censo Agropecuário em 2009. Com informações básicas sobre a agricultura familiar, foi possível aos órgãos do governo, às instituições de pesquisa e aos sindicatos dos trabalhadores rurais convergirem informações e conhecimentos para defender e desenvolver a agricultura familiar. Foi um momento oportuno em que as práticas agrícolas tradicionais e os saberes locais se uniram na perspectiva de manter e avançar na agricultura familiar.
Os efeitos da tecnologia na produção agrícola são amplos e contraditórios. É evidente que os sensores de monitoramento e a inteligência artificial são eficazes no desenvolvimento da produção agrícola. Com esses instrumentos — e outros decorrentes do avanço tecnológico — a Agricultura 4.0 possibilitou a geração e garantia da qualidade e da produtividade agrícolas. Pesquisas já apontam que estamos diante de um novo ciclo da era digital no setor rural: a Agricultura 5.0, onde a rapidez do avanço tecnológico está sendo utilizada no campo brasileiro, e cuja característica principal é a personalização e adaptação de soluções para necessidades específicas.
Por outro lado, existem desvantagens do avanço tecnológico na agricultura familiar. Nessa prevalece o conhecimento popular, transmitido de geração em geração. Os novos conhecimentos desafiam essa tradição, que, com o decorrer da atividade agrícola familiar, pode entrar em conflito com o conhecimento científico-tecnológico, evidenciando pouca adesão das novas tecnologias por parte da agricultura familiar.
O avanço das novas tecnologias é heterogêneo. Ele varia tanto nas diferentes regiões geográficas quanto nos tipos de atividade, ou seja, adapta-se às especificidades de cada atividade, conforme Souza et al. (2019). Um dos principais fatores que dificultam o acesso da agricultura familiar às novas tecnologias é o tamanho das propriedades. Os dispositivos com alta precisão tecnológica são, na maioria das vezes, incompatíveis com a escala de produção das pequenas propriedades dos agricultores familiares, segundo o mesmo autor Outros fatores importantes são a limitação da assistência técnica e a insuficiência de recursos financeiros, impedindo que o agricultor familiar tenha acesso às novas tecnologias para sua produção rural.
Importante ressaltar que o uso de novas tecnologias na agricultura familiar diz respeito tanto ao aumento da produtividade da terra quanto do trabalho. A pesquisa do referido autor ainda traz dados muito interessantes quanto ao uso dessas tecnologias nas diferentes regiões do país. As regiões Sudeste e Sul concentram os maiores índices de adoção de novas tecnologias na agricultura familiar. Na região Centro-Oeste, predominam índices médios, enquanto nas regiões Norte e Nordeste os índices são baixos ou muito baixos. Como resultado da pesquisa, o autor afirma que “a agricultura familiar, com pouca terra e capital, […] seguiu por uma via mais intensiva do fator trabalho” (SOUZA, 2019, p. 610).
Existe uma concentração da produção agrícola no Brasil. As grandes propriedades rurais, cerca de 980 mil estabelecimentos, são responsáveis por 62,3% do valor bruto da produção – VBP. Ao passo que 3,7 milhões de pequenas propriedades garantem 37,7% do VBP, segundo o Censo Agropecuário de 2017. Esse dado nos remete à necessidade de atenção à Agricultura Familiar quanto à sua capacidade de gerar valor na produção. Segundo Antônio Buainain (2021):
“O relativo atraso tecnológico de um grande número de produtores, em particular dos pequenos, deve-se […] às dificuldades e obstáculos enfrentados pelos agricultores familiares […] no âmbito das condições de inovação” (p. 12).
Ou seja, esse atraso não se deve apenas ao tamanho da propriedade, mas ao contexto geral que limita a possibilidade de o agricultor familiar acessar as vantagens da inovação tecnológica.
Papel do Estado na inclusão rural e tecnológica
Podemos afirmar que a “transformação digital da agricultura é parte de uma transformação geral que está ocorrendo em toda a economia e sociedade” (BUAINAIN, 2021, p. 22). A mudança é ampla e envolve todos os setores produtivos da sociedade.
Quanto ao papel do Estado, concordamos também com o autor quando ele afirma que “o Estado ainda possui certo protagonismo nessa onda de inovação” (idem, p. 84). Na verdade, o Estado é o maior incentivador para que a inovação tecnológica chegue ao agricultor familiar. Instituições como a Embrapa, universidades públicas e políticas agrícolas são incentivos reais para que agricultores familiares não fiquem parados no tempo e no espaço e acompanhem as inovações tecnológicas em curso no país e no mundo.
Fonte : Escrito por : Carlos Rogério de Carvalho Nunes/ Fundação Maurício Grabois
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