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Caminhada Internacional na Natureza parte do maior painel de arte rupestre do Sul do Brasil, reúne 196 participantes em São Pedro do Sul e leva o projeto a mais de 4 mil caminhantes na Região Central do RS

Rota Pedra Grande marcou a 25ª caminhada desde a retomada do projeto, em 2023, no ano do centenário do município, e lançou projeto de estruturação de uma rota turística rural; edição integrou patrimônio arqueológico, agricultura familiar e extensão rural em um percurso de 10,2 quilômetros

Caminhantes reunidos diante do paredão do Sítio Arqueológico Pedra Grande, ponto de partida da Rota Pedra Grande, em São Pedro do Sul

O interior de São Pedro do Sul recebeu, no domingo, 18 de outubro, a Caminhada Internacional na Natureza: Rota Pedra Grande. A atividade reuniu 196 participantes efetivos, entre pré-inscritos e inscrições realizadas no local, em um circuito de 10,2 quilômetros que teve como ponto de partida o Sítio Arqueológico Pedra Grande, apontado como o maior painel de arte rupestre da Região Sul do Brasil. A edição, que marcou a estreia do município no circuito, foi a 25ª realizada desde a retomada do projeto na Região Central do Rio Grande do Sul, em 2023, e, segundo dados da organização, elevou o total acumulado para 4.083 participantes efetivos, consolidando a iniciativa como um dos maiores projetos articulados de turismo rural da região.

Promovida em parceria pela Prefeitura Municipal de São Pedro do Sul, pela Emater/RS-Ascar e pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), por meio da Pró-Reitoria de Extensão, a caminhada integra o Circuito Regional do Programa do Geoparque de Assistência Técnica e Extensão Rural (PROGEATER), na ação Caminhada Internacional na Natureza na Região Central do RS. O modelo de governança é compartilhado: a prefeitura conduz a organização local e a mobilização da comunidade; a Emater/RS-Ascar atua junto às famílias rurais e aos empreendimentos envolvidos; e a UFSM coordena a comunicação e o sistema de inscrições.

A edição teve ainda um significado especial para o município, que celebra em 2026 o centenário de sua emancipação política, instalada em março de 1926. Ao abrir as portas do interior para visitantes de diversas cidades, São Pedro do Sul apresentou, em uma única manhã, camadas de sua história que vão da ocupação humana pré-colonial à colônia, às tradições gaúchas e à produção familiar contemporânea.

A recepção começou às 7h30, com café colonial por adesão preparado pela comunidade. O cardápio reuniu café, leite, suco, frutas, pães e cucas, bolachas, grostolis, chimias, melado, bolo de milho, queijo e salaminho, em uma mostra da culinária e da hospitalidade das famílias rurais.

Após a abertura oficial e o aquecimento, os caminhantes partiram às 9h. A estrutura de apoio contou com ambulância, carro de apoio, banheiros e dois pontos de apoio ao longo do trajeto. O domingo amanheceu ensolarado, com temperatura amena e um leve frio nas primeiras horas, condições ideais para a atividade, que transcorreu de forma tranquila do início ao fim.

Gravuras milenares no ponto de partida

O grande diferencial da Rota Pedra Grande esteve no local de largada. O sítio é formado por um afloramento de arenito Botucatu com mais de 80 metros de extensão, que se ergue abruptamente da paisagem. Em sua superfície, um friso de aproximadamente 24 metros de comprimento e mais de 2 metros de altura reúne gravuras rupestres (petróglifos) com representações de pegadas de aves e de felinos, associadas pela arqueologia à chamada Tradição Meridional.

“A escolha desse local não é por acaso. Estamos em um espaço de grande importância histórica, cultural e arqueológica para o nosso município e para toda a região. A Pedra Grande preserva registros rupestres de povos que habitaram este território há milhares de anos, um patrimônio de enorme valor para a nossa história e a nossa identidade”, explicou o secretário municipal de Cultura, Turismo, Esportes e Desenvolvimento Econômico de São Pedro do Sul, Luiz Felipe Flôres Bassaco.

Pesquisas realizadas no local desde a década de 1970 identificaram vestígios de ocupação humana que remontam a cerca de 900 a.C., atribuídos a grupos caçadores-coletores, além de ocupações posteriores associadas a populações agricultoras de tradição Tupiguarani. O patrimônio, portanto, registra a presença humana na região muitos séculos antes da colonização europeia e confere à caminhada uma dimensão de educação patrimonial pouco comum em roteiros de turismo rural.

Na abertura oficial, a extensionista Daiane de Mattos Taborda, da Emater/RS-Ascar de São Pedro do Sul, traduziu esse sentido ao dar as boas-vindas aos participantes: “Bem-vindos à nossa caminhada. Que orgulho imenso ter vocês aqui. Cada passo sobre essa terra e sobre as pedras é um abraço ao tempo. É uma reconexão profunda e de respeito com a nossa ancestralidade.”

Apresentação do Sítio Arqueológico Pedra Grande aos caminhantes, diante do paredão de arenito que abriga o maior painel de arte rupestre da Região Sul do Brasil

Lançamento de uma rota turística rural

A edição também teve caráter inaugural. Segundo o secretário, o nome dado à caminhada sinaliza uma estratégia de médio prazo do município para o turismo rural. “Por isso a caminhada de hoje recebe o nome de Rota Pedra Grande: ela marca o lançamento de um projeto ainda maior, que tem como objetivo estruturar, valorizar e promover essa rota turística rural”, afirmou Bassaco.

O prefeito de São Pedro do Sul, Fernando Cezar, reforçou o papel da caminhada como vitrine do principal atrativo do interior do município. “É uma satisfação para nós, aqui em São Pedro do Sul, receber tantos visitantes para a caminhada da Pedra Grande, por vários motivos. Um deles é que as pessoas conheçam a Pedra Grande, que é, com certeza, um dos pontos turísticos mais importantes da nossa região”, afirmou.

Um percurso pelo rural vivo

Classificado como de esforço moderado (nível 2 em uma escala de 5), o circuito de 10,2 quilômetros seguiu por estradas do interior, com piso regular e sinalização ao longo de todo o caminho. Dez famílias de agricultores estavam inseridas no trajeto, que contou com dois pontos de parada: o Ponto de Apoio da Comunidade e o CTG Pedra Grande, espaços de descanso e convivência entre visitantes e moradores. Em cada parada, os caminhantes recebiam o selo da edição carimbado no crachá e encontravam água, bananas, maçãs e banheiros. O secretário Luiz Felipe Bassaco destacou a acolhida da comunidade da Pedra Grande aos visitantes vindos de diversos municípios da região, em um cenário que definiu como mágico, histórico e cultural.

Ao longo do circuito, a paisagem se alternou a cada trecho. Os caminhantes atravessaram áreas de mata nativa e uma rede de recursos hídricos marcada por numerosas sangas, com água correndo junto às estradas e propriedades. Nos campos, rebanhos de ovinos e bovinos evidenciaram a pecuária, uma das principais atividades econômicas do município, intercalada por áreas de lavoura. O mosaico entre vegetação nativa, água, criação animal e agricultura ofereceu aos visitantes uma leitura direta da diversidade produtiva e ambiental do interior de São Pedro do Sul.

A caminhada também atraiu profissionais da extensão rural de outros municípios do circuito. A extensionista Cristiane Aires, da Emater/RS-Ascar de São Sepé, participou da edição como caminhante. “Estamos aqui em São Pedro, em uma caminhada muito bonita, um caminho lindo. É muito bom poder participar junto às comunidades rurais e fazer essa imersão na natureza e na Caminhada Internacional na Natureza”, afirmou.

Caminhantes de diferentes idades percorrem estrada do interior de São Pedro do Sul, entre morros e mata nativa, no circuito de 10,2 quilômetros

Agricultura familiar na feira e à mesa

Ao concluírem os 10,2 quilômetros, os caminhantes registraram sua passagem assinando um painel em formato de pedra grande, criado especialmente para a edição, e receberam pacotes de sementes como lembrança. “Estamos recebendo os nossos caminhantes, que fazem a assinatura em um painel que elaboramos, uma pedra grande, para registrar a presença deles. Depois da assinatura e do registro fotográfico desse momento, as pessoas também podem levar para casa um pacotinho de sementes de plantas nativas e olerícolas, como uma lembrança e um tempero a mais da nossa terra”, explicou Daiane.

Painel “Estive aqui!”, assinado pelos caminhantes ao final do percurso, com o paredão da Pedra Grande ao fundo

Em seguida, os participantes foram recebidos para o almoço por adesão, com galeto, arroz, maionese, saladas verdes e de frutas, pães e cucas, mandioca ou batata-doce. No mesmo espaço, a Feirinha da Caminhada reuniu nove expositores da agricultura familiar e do artesanato, que comercializaram diretamente aos visitantes alimentos coloniais, produtos da agroindústria familiar e peças artesanais.

“Aqui na Rota da Pedra Grande também tivemos a feirinha da caminhada, com nove expositores de artesanato e de produtos da agricultura familiar. Havia sabonetes artesanais, chaveiros, enfim, uma série de produtos que foram expostos e comercializados”, relatou Daiane.

Para a extensionista, o efeito vai além do dia do evento. “A importância disso está na movimentação da economia local. Fortalece especialmente a nossa agricultura, os nossos empreendedores e os nossos artesãos. Sem contar que muito negócio continua girando depois da feira. Isso, para nós, é maravilhoso”, destacou.

A comercialização em circuito curto, sem intermediários, aproxima consumidores urbanos de quem produz, valoriza a identidade dos produtos locais e abre canais de venda que se mantêm após a caminhada, um dos efeitos mais concretos do projeto para as famílias rurais.

Os números confirmam esse efeito. A edição movimentou R$ 17.414,00 na economia local, o equivalente a R$ 88,85 por caminhante. As refeições responderam por R$ 12.760,00, a feira por R$ 4.406,00 em vendas e a copa por R$ 248,00 em bebidas. Foram servidos 114 cafés coloniais e 201 almoços: 92% dos caminhantes almoçaram na comunidade e 51% tomaram o café da manhã antes da largada.

Entre os expositores, a trajetória da família Ebling ilustra o processo de agregação de valor na agricultura familiar. A agroindústria começou com a produção artesanal de melado e se formalizou, e neste ano deu origem a um novo negócio, a Kombe Caldo de Cana, presente na caminhada. “Começamos fazendo melado no galpão e depois montamos uma agroindústria legalizada, a Fervag Tacho Doce, nome que vem dos nossos três filhos: Fernanda, Valéria e Guilherme. Em 2026 nasceu outro empreendimento, a Kombe Caldo de Cana. A gente já fazia caldo de cana nas feiras, com o gazebo e um engenho pequeno, e este ano surgiu o novo negócio, um investimento da família”, contou a agricultora Jucelia Ilha da Silva Ebling.

A feira também revelou o potencial da economia criativa associada ao patrimônio local. Humberto Hasselein, da Heitor 3D Projetos Personalizados, apresentou uma coleção de ímãs inspirada na Pedra Grande, que transforma o sítio arqueológico em lembrança turística. “Este é um ímã que fizemos para a Pedra Grande, para trazer a identidade visual do lugar, ressaltando as características que existem na pedra. É uma coleção própria nossa, com as nossas histórias. Também temos um ímã da cidade de São Pedro do Sul e da comunidade”, explicou.

Hortaliças, flores e artesanato em crochê na Feirinha da Caminhada, que reuniu nove expositores da agricultura familiar e do artesanato local

Extensão rural como mediação entre o turismo e o território

Por trás de cada edição há um trabalho continuado de assistência técnica e extensão rural. Antes do evento, extensionistas da Emater/RS-Ascar mobilizam as famílias, apoiam a organização da feira e do serviço de alimentação e orientam a qualificação dos produtos; a prefeitura articula a comunidade, a infraestrutura e a segurança; e a UFSM, por meio do PROGEATER, responde pela comunicação, pelas inscrições e pelo registro sistemático dos resultados. Essa divisão de papéis tem permitido que municípios estreantes, como São Pedro do Sul, organizem roteiros estruturados em poucas semanas. Na Rota Pedra Grande, a realização mobilizou 52 pessoas: 33 na organização, no planejamento e na execução, vinculadas à Secretaria Municipal de Cultura, Turismo, Esportes e Desenvolvimento Econômico, às secretarias de Obras e de Saúde, à Emater/RS-Ascar, à UFSM e aos patrocinadores, e 19 moradores da comunidade rural, responsáveis pelo preparo dos alimentos e pelos pontos de apoio.

A comunicação do projeto também expressa uma estratégia de Assistência Técnica e Extensão Rural Digital (ATER Digital). As inscrições ocorrem pela plataforma Ecobooking, e a divulgação se apoia no perfil @caminhadasufsm no Instagram e na comunidade de avisos no WhatsApp. Na Rota Pedra Grande, 223 das 230 vagas gratuitas foram preenchidas na pré-inscrição (97%), e outras 23 pessoas se inscreveram no local, evidenciando a capacidade dessa rede de mobilizar público para o interior dos municípios.

Perfil do público: predominância feminina e diversidade de idades

Os dados das inscrições confirmam um padrão já observado em outras edições: as mulheres representaram cerca de 65% dos inscritos, reafirmando o protagonismo feminino na demanda pelo turismo rural na região. A média de idade foi de 45 anos, com participantes de 8 a 77 anos; cerca de 40% tinham mais de 50 anos e um em cada cinco, 60 anos ou mais, o que reforça o caráter intergeracional da atividade e sua associação com saúde, bem-estar e lazer ao ar livre.

Santa Maria respondeu pelo maior contingente de inscritos (95 pessoas, cerca de 43% dos registros com cidade informada), seguida por moradores de São Pedro do Sul e de municípios como São Sepé, Quevedos, Toropi e Santiago, o que demonstra a capacidade da caminhada de atrair visitantes de toda a Região Central. Dos 223 pré-inscritos, 173 compareceram (78%), e as 23 inscrições feitas no dia elevaram o público efetivo para 196 caminhantes.

Fluxo de caminhantes em trecho do circuito; a edição reuniu 196 participantes vindos de diversos municípios da Região Central

Mais de 4 mil caminhantes desde 2023

A Rota Pedra Grande foi a 25ª Caminhada Internacional na Natureza realizada desde a retomada do projeto na Região Central do RS, em 2023. Com os números desta edição, o projeto soma 5.132 pré-inscrições e 4.083 participantes efetivos, além de mais de 200 expositores da agricultura familiar, de agroindústrias e do artesanato envolvidos nas feiras realizadas ao longo do percurso.

Em 2026, o calendário regional já passou por São Francisco de Assis, Paraíso do Sul, Mata, Cachoeira do Sul, Formigueiro, São Sepé e, agora, São Pedro do Sul. A próxima edição, que encerra o calendário de 2026, será realizada em Quevedos, no sábado, 14 de novembro.

Os resultados dialogam com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, em especial os ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável), 3 (Saúde e Bem-Estar), 8 (Trabalho Decente e Crescimento Econômico), 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis), 12 (Consumo e Produção Responsáveis), 15 (Vida Terrestre) e 17 (Parcerias e Meios de Implementação). Ao articular instituições públicas, comunidades rurais e visitantes, o projeto demonstra como a cooperação interinstitucional pode transformar o patrimônio natural, cultural e produtivo dos municípios em oportunidade de desenvolvimento territorial.

Centenário com o interior em evidência

Primeira edição da Caminhada Internacional na Natureza no município, a Rota Pedra Grande mobilizou a comunidade rural no ano em que São Pedro do Sul celebra seu centenário. “Essa caminhada, para nós aqui em São Pedro, é uma novidade. Então, para toda a comunidade, é uma alegria receber vocês”, disse o prefeito Fernando Cezar aos caminhantes.

O prefeito também manifestou o desejo de manter a rota no calendário do município: “Que a gente continue, nos próximos anos, fazendo essa mesma caminhada e trazendo esse público tão especial para São Pedro do Sul.”

Ao reunir 196 participantes, movimentar R$ 17,4 mil na economia local, valorizar um patrimônio arqueológico de relevância nacional e mobilizar a comunidade rural no ano em que o município completa cem anos, além de inaugurar um projeto de rota turística permanente, a Rota Pedra Grande reafirma o turismo rural como instrumento de desenvolvimento sustentável e de fortalecimento dos territórios rurais, e consolida a extensão rural como mediadora entre universidade, poder público e comunidades da Região Central do Rio Grande do Sul.

Para mais informações, os interessados podem acessar as redes sociais do projeto @caminhadasufsm ou na comunidade de avisos do WhatsApp.

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