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A tragédia climática e a necessidade de repensar comportamentos alimentares

 

Autor: Gustavo Pinto da Silva – Professor do Colégio Politécnico e do Programa de Pós Graduação em Extensão Rural da UFSM

*A síntese deste texto foi publicada no Diário de Santa Maria, edição de 10 de maio de 2024.

O que estamos passando nesses últimos dias no Rio Grande do Sul é simplesmente inimaginável do ponto de vista de nossas racionalidades e compreensões. Casas arrastadas, árvores arrancadas, estradas interrompidas, pessoas isoladas, famílias destroçadas, animais morrendo sem refúgio, regiões inteiras modificadas são parte dessa cena dramática. Os lugares estão sendo transformados e tornando-se irreconhecíveis. Muitas pessoas perderam tudo o que levaram uma vida inteira para construir e não terão sequer um lugar para onde retornar quando os rios voltarem ao curso normal. A força da água levou não só os bens materiais e os solos que os agricultores cultivavam, mas projetos de vidas familiares, sonhos e experiências que projetavam viver. Por mais que acreditemos que haverá investimentos públicos para amenizar os problemas e a solidariedade das comunidades, não existem possibilidades de fazer com que a vida volte a ser como era antes. Também é uma tragédia que nos anuncia a incerteza em relação ao futuro e do que ainda possa vir; evidencia que as mudanças climáticas são uma realidade que batem a nossa porta; e que eventos extremos se tornarão mais intensos, como já prognosticado por evidências científicas, repetidamente desprezadas por negacionistas.

Gostaríamos de provocar a/o leitor/a: já pensaram sobre a origem dos alimentos nessas situações? Mesmo que haja predomínio de agricultura como forma produtiva na Região Central do Rio Grande do Sul, somos dependentes de uma boa quantidade de alimentos para o consumo do dia a dia. Considerando os componentes da cesta básica, somos autossuficientes em arroz e produzimos um pouco de hortaliças, especialmente folhosas. O restante são alimentos que, para chegar até nós, viajam longas distâncias. O feijão que hoje consumimos, por exemplo, em boa parte é oriundo de outras regiões e também de outros países. O leite, mesmo quando produzido por aqui, viaja para outras regiões para ser processado e depois volta para ser disposto nas prateleiras dos supermercados. As frutas vêm em sua quase totalidade dos estados de Santa Catarina e Paraná, Região Sudeste e Nordeste do país. Ainda que estejamos numa região produtora de soja, o óleo, em quase maioria absoluta, é oriundo de plantas industriais localizadas no Paraná. Basta ir no supermercado e ler o rótulo disposto nas embalagens para comprovar esses fatos. Ou seja, não quero alarmar, mas, se não tivéssemos estoques de alimentos não perecíveis para suprir os supermercados e vias alternativas para fazer chegar os perecíveis, situações de isolamento físico como as que estamos vivendo agora nos aprofundaria em uma crise de escassez.

É nesse sentido que chamamos a atenção para a importância de promovermos o fortalecimento de iniciativas locais de produção, sejam dos agricultores individuais ou de organizações locais. Nessas horas de catástrofes, são justamente essas formas organizacionais, ora os maiores afetados, que apresentam condições de ligar a produção ao consumo e pelo menos ampliar por mais tempo a garantia de fornecimento de alimentos. Refiro-me também às pequenas cooperativas, aos supermercados de marcas locais, às feiras livres, às hortas comunitárias, dentre tantas iniciativas que, por vezes, mesmo ao nosso lado, sofrem de invisibilidade.

O ato da doação de leite que os produtores do grupo Gutte Milch de Paraíso do Sul, produtores de Agudo e Restinga Seca fizeram nesses últimos dias, diante da interrupção das vias de transporte, é digno de uma reflexão de nossa parte. Enquanto os preços dos alimentos disparavam em alguns supermercados e denunciavam a face oculta de quem se aproveita da crise, eles faziam doações para aqueles que mais precisavam. Por meio das redes sociais e do apoio dos Bombeiros Voluntários de Paraíso do Sul, as pessoas recebiam a informação de que poderiam obter até 4 litros de leite/família/dia, desde que providenciassem embalagens limpas para o envase. Posteriormente, além das doações, os produtores também criaram um canal de comercialização, vendendo por um preço abaixo do praticado nos supermercados. Considerando que os consumidores comprariam leite para o consumo de qualquer maneira, por que não fazer um gesto de apoio e compensação a quem já investiu nos custos de produção e que precisa minimizar as perdas econômicas? Importante destacar também o papel dos técnicos de assistência técnica e extensão rural da Emater/RS que apoiam e facilitam essas soluções junto aos agricultores. Mesmo com a diminuição de seus quadros de pessoal, estão lá de mãos dadas com seus assistidos.

Por meio desses gestos de solidariedade, empatia e generosidade é que continuamos na luta de defender o local e o território como espaço de iniciativas de desenvolvimento. É muito mais fácil estabelecer pontes e interações com quem está ao nosso redor do que com quem está longe. Por isso, ao longo dos sete anos de existência, o projeto de extensão Polifeira do Agricultor do Colégio Politécnico da UFSM, em parceria com outras organizações locais como a Emater/RS ASCAR e Prefeitura Municipal de Santa Maria, tem buscado criar experiências de produção de alimentos saudáveis e inclusivos e que aproximem a produção do consumo. Aqui não queremos somente defender a feira livre, mas todas as formas de proximidade, sejam quando os alimentos são entregues direto nas residências dos consumidores, produzidos em hortas comunitárias, organizados e comercializados por cooperativas locais, supermercados, fruteiras, casas de carnes e restaurantes que compram dos agricultores locais. Essas experiências têm o potencial da sinergia e de fazer circular recursos financeiros e que se reinvestem nas próprias atividades, dinamizando a econômica local. Também são veículos de relações sociais que retroalimentam cuidados para bens comuns a exemplo dos alimentos, do ambiente, das paisagens rurais e de nossa gente.

A aproximação da produção com o consumo é parte dessa senda de preparar sistemas alimentares mais resilientes, seja para alcançarmos comunidades mais sustentáveis ou para nos prepararmos para esses momentos extremos. Queremos dar luz as formas produtivas daqueles que, invisíveis aos olhos da maioria e sem brilhar nos holofotes da mídia, sofrem de ações descontínuas em termos de políticas públicas, mas também do próprio apoio da sociedade em geral. No dia a dia, em situações normais, raramente nos perguntamos quem produziu os alimentos que estão em nosso carrinho de compras, em que lugar e de que forma. Para enfrentarmos situações como a que estamos passando, precisamos tirar o manto desse anonimato e dessas invisibilidades e tomar decisões que encarem as implicações que nossos comportamentos alimentares apresentam sobre sistemas alimentares melhores e mais comprometidos com o lugar em que vivemos. Também precisamos de mais políticas públicas, mais empenho contínuo de nossas organizações, mais envolvimento de todos com o cuidado de bens comuns.

Os produtores de leite de Agudo, Paraíso do Sul e Restinga Seca nos mostraram que, quando as estruturas tradicionais são abaladas, eles representam possibilidades concretas de apoio e superação. Em meio ao caos das enchentes e da crise econômica, surge uma simples, porém poderosa, possibilidade de contribuir para gerar força local: COMPRAR DIRETO DOS AGRICULTORES OU DE QUEM ESTÁ COMPROMETIDO EM APOIÁ-LOS! Mesmo para uma doação, procure identificar produtores de alimentos locais, pois, além de aliviar as perdas econômicas enfrentadas neste momento, também estará fortalecendo laços comunitários e promovendo a resiliência local. Essas compras animarão os agricultores para que melhorem seus sistemas de produção, tenham capacidade de investimento em infraestrutura para minimizar as forças da natureza e, quiçá em outros eventos extremos, não tenhamos que pagar até R$ 10,00 por um único pé de alface. Nossos agricultores, dessa forma, terão garantia de retorno quando tiverem que fazer novos investimentos em suas atividades produtivas.

Assim como o meio ambiente precisa de condutas que promovam a preservação ambiental, o sistema alimentar precisa de comportamentos que apoiem em vez de ameaçar a capacidade de resiliência frente a um futuro incerto. Precisamos fazer uma leitura mais aprofundada do que acontece ao redor para identificarmos como nossos comportamentos individuais e coletivos podem desafiar rotinas, entendimentos e práticas frente a bolha do socialmente aceito. Ademais que o direito a uma alimentação saudável, suficiente e de qualidade, precisamos corrigir e reflexionar mais sobre as obrigações e os impactos que esse ato apresenta sobre esferas públicas para a construção de sociedades mais sustentáveis. Que possamos rever nossos comportamentos e juntos reerguermos o Rio Grande do Sul!

Como citar esse texto: 

SILVA, G. P. A tragédia climática e a necessidade de repensar comportamentos alimentares. Portal O Extensionista, Santa Maria, p.1-3, maio 2024. Disponível em: https://oextensionista.com/a-tragedia-climatica-e-a-necessidade-de-repensar-comportamentos-alimentares/. 

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